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Bom, essa coisa de copiar e colar, não cola muito... pode soar como “falta do que postar”. Mas, juro, não é essa a situação... Este é um texto que merece ser colado em todos os blogs e sites do mundo, nas paredes do quarto, nos muros, nos jornais, na porta da geladeira... É quase uma oração, uma homenagem linda escrita pelo grande Plínio Marcos a uma “gente encantada”.
O Ator
(Plínio Marcos*)
Por mais que as cruentas e inglórias batalhas do cotidiano tornem um homem duro ou cínico o suficiente para ele permanecer indiferente às desgraças ou alegrias coletivas, sempre haverá no guarda-ecos dos sons, algum momento de amor que viveu na sua vida.
Bendito seja quem souber dirigir-se a este homem que se deixou endurecer, de forma a atingi-lo no pequeno núcleo macio de sua sensibilidade e por aí despertá-lo, tirá-lo da apatia, essa grotesca forma de autodestruição que por desencanto ou medo se sujeita, e inquietá-lo e comovê-lo para as lutas comuns da libertação.
Os atores têm esse dom; eles têm o talento de atingir as pessoas nos pontos onde não existem defesas. Os atores, eles, e não os Diretores e Autores, têm esse dom: por isso o artista de teatro é o ATOR.
O público vai ao teatro por causa dos Atores; o Autor de teatro é bom na medida em que escreve peças que dão margens a grandes interpretações dos Atores. Mas o ator tem que se conscientizar de que é um Cristo da Humanidade e que seu talento é muito mais uma condenação do que uma dádiva.
O Ator tem que saber que para ser um Ator de verdade, vai ter que fazer mil e uma renúncias, mil e um sacrifícios. É preciso que o Ator tenha muita coragem, muita humildade e, sobretudo, um transbordamento de amor fraterno para abdicar da própria personalidade em favor da personalidade de suas personagens, com a única finalidade de fazer a sociedade entender que o ser humano não tem instintos e sensibilidade padronizados como os hipócritas com seus códigos de ética pretendem.
Eu amo os Atores nas suas alucinantes variações de humor, nas suas crises de euforia e depressão. Amo o Ator no desespero da sua insegurança, quando ele, como viajante solitário, sem bússola da fé ou da ideologia, é obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente, procurando no seu mais secreto íntimo, afinidades com as distorções de caráter que seu personagem tem. E amo muito mais o Ator quando, depois de tantos martírios, surge no palco com segurança, emprestando seu corpo, sua voz, sua alma, sua sensibilidade, para expor, sem nenhuma reserva, toda fragilidade do ser humano reprimido, violentado.
Eu amo o Ator que se empresta inteiro para expor para a platéia os aleijões da alma humana, com a única finalidade de que seu público se compreenda, se fortaleça e caminhe no rumo de um mundo melhor, que tem que ser construído pela harmonia e pelo amor.
Eu amo os Atores que sabem que no palco cada palavra e cada gesto são efêmeros e que nada registra nem documenta sua grandeza. Amo os Atores e por eles amo o teatro e sei que é por eles que o teatro é eterno e que jamais será superado por qualquer arte que tenha que se valer da técnica mecânica.
Eu amo os Atores que sabem que a única recompensa que podem ter não é dinheiro, não são os aplausos, é a esperança de poder rir todos os risos e chorar todos os prantos.
Plínio Marcos (1935 – 1999) – Autor conhecido por abordar assuntos “malditos”, como homossexualismo, marginalidade, prostituição e violência, foi um dos primeiros a retratar a vida dos submundos de São Paulo. Entre suas obras mais famosas (e polêmicas), estão os espetáculos teatrais "Dois Perdidos numa Noite Suja" e "Navalha na Carne", escritos entre 1966 e 1967. Teve todas as peças proibidas pela censura do governo militar da época e por isso quase desistiu da carreira de dramaturgo, o que, para nossa sorte, não aconteceu.
Leia mais sobre Plínio Marcos:
http://almanaque.folha.uol.com.br/plinio_marcos.htm
http://www.releituras.com/pmarcos_menu.asp
http://www.pliniomarcos.com/